segunda-feira, 7 de abril de 2014

Crianças pequenas precisam de colo

Colo: um cuidado que educa
Escrito por Damaris Gomes Maranhão em 06/06/1999. 
                                                                   Publicado em Jeitos de Cuidar, Revista Avisa lá #14

Ser seguro no colo, ser abraçado e tocado são experiências humanas essenciais. Os jeitos de segurar e tocar variam conforme as diferentes culturas. Hoje existe, na maioria das sociedades urbanas, todo um aparato de objetos e mobiliário para conter os bebês e crianças pequenas, o que reduz em muitos casos as oportunidades de contato físico com os pais e outros adultos. Para cuidar é preciso antes de tudo estar comprometido com o outro, com sua singularidade, ser solidário com suas necessidades, confiando em suas capacidades. Disso depende a construção de um vínculo entre quem cuida e quem é cuidado.

Em outros lugares do mundo, entretanto, existem crianças que permanecem todo o tempo no colo das mães, acompanhando-as até mesmo nos momentos de trabalho como acontece em várias tribos indígenas e povos africanos. Na cultura balinesa, por exemplo, o colo e os toques massageadores são extremamente valorizados, ensinados de geração a geração. Seja como for, o toque na infância é um dos cuidados que ajuda a criança a se constituir como sujeito e a desenvolver mais confiança nos seus parceiros sociais.

Crianças de diferentes idades precisam sentir-se fisicamente acolhidas pelo outro, seja numa situação social nova, seja em momentos de maior desafio de suas competências, em ocasiões de medo, insegurança ou mesmo de alegria ao experimentar algo diferente.

Ao contrário do que muitos pensam, carregar crianças não “acostuma mal”. O colo confortável e seguro é um cuidado fundamental e deve fazer parte do trabalho educativo sempre que necessário. Um bom colo para os bebês, proporciona não só um meio de transporte, mas conforto e proteção, além de criar uma experiência táctil e de interação que contribui para a organização postural e a construção da identidade.

O jeito de segurar um bebê permite a ele se amoldar ao corpo de quem o acolhe e vice e versa; nesse gesto o adulto delimita um espaço para que o bebê possa sentir seu corpo e o do outro, ajudando-o assim a constituir a consciência corporal, base da construção da identidade, segundo Wallon. Além disso ajuda a se organizar neurologicamente para que possa então coordenar seus movimentos, seus olhos, sua atenção para interagir com a face de quem o segura. A possibilidade de observar e interagir com o mundo a partir de um “porto seguro”, deve encorajar uma condição autonoma mais tarde.
Quando estão aprendendo a andar e freqüentam uma instituição de educação, as crianças precisam da presença do professor que, neste caso, torna-se um ponto de referência e segurança para onde poderão retornar sempre que precisar.

Da mesma forma, ao estranhar outra pessoa ou uma situação nova de desconforto ou prazer, costumam procurar segurança, retornando temporariamente para a proximidade do professor. Assim buscam ter o apoio necessário para reorganizar suas emoções mais intensas. Mais tarde, quando caem e se machucam, brigam ou têm explosões de raiva, podem precisar do acolhimento, nos braços do professor, para se acalmar.

A necessidade de contato físico não é exclusividade da infância. Conforme crescemos vamos substituindo o “estar literalmente seguro no colo” pelo colo simbólico: o abraço, o toque de incentivo ou de tranqüilização, o repouso no ombro daquele que confiamos, a segurança de um olhar de aprovação. Nesses gestos comumente reconhecemos sentimentos semelhantes ao que tivemos quando criança.

Essas experiências, vividas e registradas ajudarão a constituir nossos jeitos próprios de nos cuidar e cuidar dos outros.
                                                                                       
 (Damaris Gomes Maranhão, Julho de 1999)

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